domingo, 2 de novembro de 2008

Reprodução das Arraias

As arraias são peixes fascinantes; as de água doce são originárias da Bacia Amazônica, da Bacia do Prata e dos rios do sistema Orinoco, ou seja, América do Sul. No caso do Brasil, estes peixes localizam-se em maior número no vale médio do Rio Negro no estado do Amazonas, Região Norte. São componentes da antiga classe dos elasmobrânquios sendo que pela taxonomia atual estão inseridas na classe Condrichtyes (do grego chondros = cartilagem, ichthys = peixe), classe esta que ainda inclui os tubarões e as quimeras. Um detalhe curioso mora no fato das arraias, além dos tubarões, figurarem entre os mais primitivos de todos os vertebrados existentes pois há 350 milhões de anos vêm seguindo um rumo solitário na tumultuosa estrada da evolução. Penetrando um pouco mais na anatomia de uma arraia, temos um peixe achatado no sentido dorsoventral com suas barbatanas peitorais expandindo-se e ligando-se à cabeça, gerando formas triangulares, que se assemelham à asas, fato mais notado em arraias de água salgada. Suas nadadeiras são pares, ou seja, atuam como abas móveis que auxiliam na propulsão e na orientação do peixe na água. São dotadas de uma mandíbula móvel e denteada.
Uma variação anatômica que ocorre na arraia jamanta ou peixe-diabo, que pode atingir 5 metros de comprimento, é um par de projeções rígidas que se exteriorizaram formando um tipo de funil, que a auxilia no ato de comer.
Sua cauda tem a forma de chicote, sendo que as arraias-lixas possuem filamentos na base da cauda com um potente veneno que é capaz de matar um homem. No entanto, o que as arraias possuem normalmente nas suas caudas são espinhos que são reforçados por cálcio sendo que estes são renovados de 6 em 6 meses.
As arraias não despertam o interesse dos aquaristas justamente pela sua cauda, mas o que a maioria não sabe é que esta é utilizada primariamente para defesa. Muitos relatos foram feitos por pescadores que ao entrarem em algum rio pisam sobre estes seres, devido ao hábito destes animais estarem constantemente enterrados no fundo dos rios, e por um ato de puro reflexo, introduzem a sua cauda geralmente no tornozelo do pescador, sendo que este sentirá uma dor muito aguda que pode ser seguida de vômito, aumento da freqüência cardíaca e se houver alguma infecção ou sangramento deve ser tratado por um profissional da saúde, sendo que o local da picada deve ser observado atentamente para notar se não há nenhum espinho remanescente.

De acordo com o relato de um pescador, seu irmão pisou em uma arraia em um rio de Goiás e viu que a cauda deste peixe possui uma amplitude de movimento de 360° e que a arraia ao ser pisada move esta cauda muito rapidamente e assim acaba por atingir o tornozelo do pescador, na maioria dos casos, na região posterior, atingindo o tendão. Devido à disposição dos espinhos, a cauda ao entrar no tornozelo rasga os músculos e ao sair continua rasgando. O pescador relatou que “a carne apodrece”. Deste modo, o manuseio com estes animais deve ser de extrema cautela.


Sua pele é formada por escamas em forma de placas; possuem esqueleto totalmente constituído por cartilagem, o que as torna mais leves; suas guelras ou brânquias estão enfileiradas duplamente em número de cinco na face abdominal do corpo; outra abertura existente, além da boca ventral, é chamada espiráculo e aparece como um orifício com forma redonda na face superior do corpo, atrás dos olhos, provido de uma válvula de retenção que se abre e fecha quando o peixe respira. Deste modo o fluxo de água é de cima para baixo, ou seja, entra pelo espiráculo e sai pelas fendas branquiais. Sua visão é pouco aguçada e seus olhos são laterais e desprovidos de pálpebras; os machos possuem um par de clásperes, que são utilizados na cópula.


Outro fato curioso está na presença da chamada válvula espiral do intestino. Este dispositivo visa a um aumento da superfície de absorção dos nutrientes pelos intestinos, visto que estes nos peixes cartilaginosos são muito curtos. Sua audição é pouco desenvolvida sendo que seus ouvidos são órgãos de equilíbrio que contém os canais semicirculares que informam ao peixe as mudanças de direção, aceleração e desaceleração, e ainda se está situado corretamente na água. Não há tímpanos para a captação de ondas sonoras.




Reprodução:

Os dois sexos copulam, o ovo é fecundado dentro da fêmea e em muitas espécies os alevinos nascem vivos. Os clásperes, já citados, são formados nas partes internas das barbatanas pélvicas e como já explicado são utilizados na fertilização. Este órgão é enrijecido com cartilagem e atua como dilatador para dirigir o esperma dentro da abertura da fêmea. Na cópula ele projeta-se para frente, em ereção, e introduz-se na fêmea, e os sulcos existentes ao longo de suas faces internas formam um tubo através do qual flui o esperma. As arraias ejetam os ovos fertilizados em cápsulas que se tornam rígidas com o contato com a água. Meses depois o alevino emerge da cápsula como uma miniatura dos seus genitores. Mas há arraias que são vivíparas, ou seja, produzem alevinos plenamente formados. O embrião se desenvolve no interior do corpo da fêmea, e se alimenta de amplo saco vitelínico. Este tipo de gestação leva 3 meses, sendo que os neonatos ficam de 4 a 5 dias sob a fêmea. Nas arraias vivíparas, um fato curioso ocorre, pois os alevinos possuem os espinhos ou farpas das suas caudas metidos em uma bainha, impedindo que ocorra algum dano à mãe durante o parto.



Arraias Elétricas:

Algumas espécies de arraias possuem a capacidade de emitir choques elétricos. Os órgãos elétricos situam-se nas asas, com inervação oriunda do cérebro, sendo que estes órgãos são formados a partir de fibras musculares modificadas.Sua composição é de uma série de eletroplacas que são células em forma de disco, sendo que cada uma está encerrada em um compartimento de tecido conjuntivo, com nervos de um lado e irrigação sangüínea do outro, sendo que é esta irrigação que libera a descarga elétrica que é gerada por uma reação química.
As arraias-torpedos, que são as que possuem os maiores e mais potentes desses órgãos elétricos. Uma arraia deste tipo pode possuir até 1.050 eletroplacas em cada lado do corpo e pode emanar uma descarga de 220 volts, que vai do ventre para o dorso, estando o lado vascularizado localizado na parte superior.A partir de agora, serei mais específico sobre os cuidados para com este peixe em aquários.



Aquário:

As arraias são peixes que permanecem a maior parte do tempo no fundo do aquário; tendo em vista este fato, o aquário ideal deve ter uma largura avantajada com uma altura de 50 cm. Não há um tamanho padrão, mas muitas pessoas afirmam que o tamanho mínimo deve ser de 250 litros (1,00 X 50 X 50 cm). O que é obrigatório é que haja um bom espaço físico no fundo para que o peixe possa nadar ativamente e descansar.

Substrato:

Existe uma discussão sobre o substrato ideal para se inserir uma arraia. Na minha opinião, não existe tal discussão; o substrato ideal é areia fina rolada, a fim de preservar a integridade física do peixe. Algumas pessoas utilizam cascalho fino e pequeno, mas se você fosse uma arraia, gostaria de se enterrar em um monte de pedras, mesmo que estas fossem pequenas?A arraia é um peixe que gosta de se enterrar; este hábito existe pois na vida selvagem ela vasculha o fundo dos rios atrás de pequenos moluscos e crustáceos para se alimentar. Portanto, utilize areia. Se você acredita que a areia não abriga bactérias que são úteis ao aquário e que o cascalho possui esta capacidade, invista em um filtro de maior capacidade para compensar esta “perda”.
Se quiser acrescentar algo dentro do aquário para ornamentação, insira algumas plantas superficiais.

Filtragem:

A filtragem é um dos itens mais importantes para o seu aquário. Você pode utilizar qualquer tipo de filtro, com exceção para os filtros biológicos de fundo (FBF) pois a areia obstruirá a passagem de água pelos furos das placas.
O que recomendo é um filtro externo eficiente com uma área biológica elevada; se possível adicione no interior do filtro bioball ou cerâmica tendo em vista um aumento da área biológica, além de carvão ativado para colaborar na neutralização de substâncias nocivas aos peixes, sendo que este deve ser trocado mensalmente.
Uma outra opção que é muito eficiente mas que requer um pouco mais de trabalho e dinheiro é uma caixa de circulação. Além de possuir uma velocidade mais alta de filtragem, você decide a quantidade de bioball ou cerâmica, de acordo com a sua necessidade.



Iluminação:

Infelizmente a maioria das pessoas utiliza lâmpadas fluorescentes, tipo luz do dia na iluminação de seus aquários. Este tipo de lâmpada não é aconselhável por 3 motivos:
1.) ela é muito forte, o que atrapalha a visão do peixe;
2.) não estimula a proliferação de bactérias úteis ao aquário;
3.) não destaca as cores naturais do peixe.
Recentemente, montei um aquário e coloquei um Oscar (Astronotus Ocellatus) de 1 ano de idade para povoá-lo. Depois da montagem da calha resolvi fazer um teste: coloquei uma lâmpada florescente comum do tipo luz do dia; depois inseri uma lâmpada Aquaglo, própria para aquários. A tonalidade das cores do peixe com esta lâmpada é incrível; com a lâmpada luz do dia o peixe fica apagado e opaco, então utilize qualquer lâmpada, desde que esta seja própria para aquários. Há vários tipos como Day Max, Tri-Luz, etc...

Temperatura:

A temperatura ideal é de 25°C podendo variar de 24 a 27°C. Para manter esta temperatura em dias mais frios você pode utilizar um aquecedor ou um termostato, mas certifique-se de protegê-los pois sua arraia pode vir a se queimar.

Oxigênio:

Tendo em mente que a arraia possui um potencial de crescimento elevado, você terá que possuir uma oxigenação da água muito eficaz pois um peixe grande demanda uma quantidade elevada de oxigênio.
Esta oxigenação não é suprida apenas pelo filtro externo ou pela caixa de circulação, então coloque uma bomba submersa apenas para circulação e oxigenação de água.
Meu Oscar sofreu muito quando sua bomba submersa queimou ficando o aquário dependente apenas do filtro externo. Meu peixe ficava no fundo, parado e apático, fatos que não foram mais observados com a introdução de uma nova bomba.

Água:

Devido ao grande porte de uma arraia e da sua alimentação quase que exclusivamente protéica (explicada mais adiante), as trocas de água devem ser constantes pois na constituição das proteínas está o grupo amino (-NH2) e este, metabolizado, pode vir a tornar-se NH3 (Amônia), NO3 (Nitrato), NO2 (Nitrito), todos tóxicos e letais ao peixe.
Uma arraia que habita um aquário com água poluída com nitrato (NO3), por exemplo, terá sua parte ventral avermelhada, além de não se alimentar e se mover.
Uma troca eficiente de 15 a 20% do volume de água do aquário a cada semana, além da limpeza mensal do sistema de filtragem, contribui para um nível de poluentes próximo de zero, lembrando ainda que estes poluentes encontram-se nas fezes do peixe.
Outro fator de preocupação é a intolerância por parte das arraias quanto ao sal. Não adicione sal a água de sua arraia.
O pH deve estar por volta de 6.8, abrigando uma variação de 6 a 7.2, sendo que se for necessária uma mudança de pH, esta deve ser realizada vagarosamente. Um fato interessante é que as arraias, quando nos rios amazônicos, habitam águas ácidas, com pH em torno de 5.5. Creio que se as poucas arraias que habitam os aquários estão situadas em pH próximo de 7.0, há 2 possibilidades: estes peixes aclimataram-se e adaptaram-se neste pH ou as arraias de pH 7.0 são criadas em cativeiro.
A dureza da água não é muito importante para estes peixes, mas é aconselhável uma dureza média.

Alimentação:

Para que sua arraia seja saudável você deve variar a sua dieta ao máximo. Os alimentos para este tipo de peixe são na sua maioria vivos, o que requer um cuidado extra.
Você possui várias opções tais como carne crua e raspada, patês, tubifex, minhocas, camarão, larvas de inseto, bloodworms, lembrando que estes alimentos devem chegar ao fundo do aquário, local este onde a arraia se alimenta. Peixes vivos podem ser utilizados como alimentos mas lembre-se que as arraias não são exímias caçadoras e que devemos tentar adequar o tamanho do peixe ao tamanho da boca da arraia.
Além destes alimentos você pode tentar alimentá-las com ração, não em flocos, mas na forma de bolinhas (pellet); o problema é que isto requer perseverança, mas acho completamente viável, visto que acostumei um pintado e um dourado a comer ração.
Um fato interessante é que alguns possuidores de arraias alimentam-nas diretamente na boca. Se você tiver coragem e conseguir realizar isto, será bem mais fácil acostumar seu peixe a comer ração.

Colegas de Aquário:

Se você montar um aquário com outras arraias não terá problemas com exceção de alguns machos que mordem e matam os companheiros (as).
Você pode utilizar peixes dóceis que não venham a incomodá-las; se você gosta de cascudos, tenha cuidado, pois estes peixes possuem o hábito de ficarem sugando as arraias; além disso não coloque peixes pequenos pois a arraia adorará comê-los. Outro tipo de peixe que pode ser colocado junto com as arraias é o Arowanã, que fica a maior parte do tempo na superfície, bastando apenas que haja espaço suficiente para ambos.
Evite ciclídeos e outros peixes agressivos e territorialistas.
Aclimatação e Saúde:

Depois de ter realizado todos estes passos só está faltando o peixe dentro do aquário e, por favor, faça isso cautelosamente. A escolha do peixe e a sua posterior aclimatação são fatores muito importantes.
Na hora de escolher uma arraia, peça para o lojista mostrar todo o peixe, ou seja, veja o ventre e o dorso do peixe na busca de manchas ou machucados, pois os pescadores, na maioria dos casos, machucam as arraias quando na sua captura. Além disso, peça ao lojista para alimentar a arraia, pois as saudáveis comem sem fazer cerimônia demonstrando vitalidade.
Depois disso, você irá soltar seu peixe em seu aquário. O método mais correto deve ser a utilização de um tanque ou aquário extra. Coloque um compressor de ar para oxigenação neste tanque e introduza de movo suave e calmo a água do aquário que a arraia deverá habitar. Faça isto por um período mínimo de 30 minutos.
Se você não dispuser de um tanque extra, faça este procedimento no recipiente em que a arraia foi transportada e se possível coloque este recipiente no interior do aquário que a sua arraia irá habitar, para que haja um equilíbrio de temperatura.
Doenças em arraias são raras, dependendo do modo como a mesma foi capturada, pois se ela foi ferida estará apta a desenvolver doenças mais facilmente. O caso mais comum é a infecção por fungos, mas esta desaparece rapidamente.
Finalizando, se a sua arraia está enterrada no substrato ou está indo de cima para baixo no aquário ou vice-versa ou está sempre na superfície ou está com o ventre sempre encostado no vidro, não se preocupe que a sua arraia está completamente saudável.

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